quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Nem sempre tão divertido assim.

As aulas de Educação Física nas escolas são cercadas de situações que são muito particulares à própria disciplina em questão. Muitos alunos aguardam ansiosamente por este momento, pois para muitos, trata-se de um momento prazeroso e de extravasar as emoções e muitas vezes pressões e cansaço que existem em sala de aula. Por conta disso, algumas situações estereotipadas são vinculadas à imagem que se tem das aulas de Educação Física que são meramente mitos. Mitos estes que gostaria de arriscar-me a escrever algumas linhas e abrir um debate saudável e produtivo sobre a temática.


De volta ao trabalho na escola desde o início do ano, vejo que um dos mitos que me preocupam e que o senso comum não percebe e muitas vezes nem professores e nem componentes da escola se sensibilizam é o mito de que Todos adoram a aula de Educação Física.

É fato que a aula é comemorada por grande parte e maioria da turma. E só este fato já deve ser olhado de diversos pontos de vista, já que muitas vezes a aula é a mais esperada porque e própria confunde-se com um "Recreio 2 - A missão", ou um encontro de amigos para jogar uma "pelada", tornando-se uma prática sem contexto pedagógico. Isso infelizmente acontece muito, mas será tema de um futuro post que tratará de outros  mitos da Educação Física trabalhada na Escola.


Pois bem, enquanto diversos alunos comemoram a chegada da tão esperada aula, este é um momento que causa pavor em alguns outros. Não estou exagerando. Com o tempo de aula e vivências de casos com alunos que não gostavam da disciplina, tenho relatos em que alguns me contavam que dormiam mal no dia que antecedia a aula de Educação Física. Tudo isso porque temos alguns pontos deterministas que tomaram conta para a participação desta aula. 

Muitos acreditam que para participar das aulas é preciso ter completo e total domínio das habilidades motoras utilizadas para as práticas esportivas (Conteúdo basicamente hegemônico nas aulas). Além disso, na aula prática, os alunos ficam muito expostos aos colegas e isso gera um tipo de intimidação. Vergonha do corpo e de sua exposição, fruto de uma exacerbação do culto ao corpo que temos na sociedade, na mídia vendendo produtos e propagando programas exaltando o "corpo perfeito". Estas informações de alguma forma são introjetadas e repdroduzidas pelos estudantes, principalmente na fase da adolescência, onde os jovens encontram-se cheio de mudanças corporais, dúvidas pessoais e perdem um pouco daquela ingenuidade do participar e se divertir em troca de uma malícia e observação crítica das situações de aula.

O que mais assusta nestas questões é que em diversas escolas espalhadas pelo Brasil, o estudante pode não participar das atividades trocando a participação de aula por trabalhos escritos. Outras vezes a avaliação do aluno fica apenas no campo comportamental, não sendo avaliado se ele teve uma efetiva participação e envolvimento na disciplina. Pelo contrário, avalia-se o seu caráter se ele é "gente boa" ou se é um aluno que "dá trabalho" e assim a sua avaliação em Educação Física está pronta. Já em outros lugares os alunos são "obrigados", como qualquer outra disciplina, a participar. Muitas vezes participações que contém provas práticas de flexões, abdominais e tempo de corrida. E assim, com esta diversidade de atuação da área, vamos mostrando e passando a mensagem de que a Educação Física  é a penas um complemento, não serve para nada, não cai no vestibular, e por isso, não tem a sua relevância. 


É óbvio que não acredito nisso e escrevo estas últimas palavras até com tristeza, mas é o que muito acontece em diversos locais. Falo isso com muita tranquilidade, pois quando sou questionado por novos alunos do porquê de fazer a aula, dentre vários outros que querem começar logo a aula gritando e pedindo agilidade minha para dar início as atividades, pego este aluno no "cantinho" da quadra e o encho de argumentos que podem sim ser colocados para que o próprio reflita um pouco sobre sua efetiva participação. Desde a questão de ser um componente curricular, passando pela questão moral de respeitar o gosto contrário do aluno (Normal, somos seres com uma diversidade incrível de gostos), mas que respeitem e se comprometam a tentar participar (Pois na vida não fazemos apenas o que gostamos e quando queremos), até passando pelas questões da formação motora (Mais um tema futuro a ser abordado neste relato sobre quebra de mitos) e o caso do sedentarismo que assola não só adultos como crianças no mundo hoje em dia. 

São diversos os argumentos que aos poucos você pode tentar ir colocando para o seu aluno, mas de uma forma que este crie vínculos e que sua prática tenha sentido e contexto dentro da produção da turma. A "batalha" para conquistar este tipo de aluno é grande, mas com uma recompensa enorme para quem acredita em educação, isso porque muito dos que não gostam de participar de uma atividade coletiva nas aulas, temem a própria exposição e não são contrários às propostas, mas sim, sentem medo de algo dar errado e virarem motivo de brincadeiras de mau gosto ou de serem ridicularizados perante sua participação.

Quando este aluno vence este medo, torna-se outro dentro de uma aula e começa a ter reais e significativos aprendizados, não só de suas ações motoras que certamente evoluem, por agora passar a arriscar-se frente aos colegas de sala, mas também evoluem quanto à questão relacional, dividindo tarefas com seus colegas, pensando em solucionar problemas do jogo ou da atividade proposta em conjunto, avaliando o que fazer e como fazer diante da sua capacidade e da de seus colegas.


Existem muitos alunos ainda pelos "cantos da quadra", tímidos, ferozes e relutantes em participar. Mas cabe a nós transpormos essa barreira com eles e por eles, para que estes jovens tenham a chance de se descobrirem mais e mais a cada dia. Eu me orgulho de cada aluno que um dia me deu a chance de tentar enfrentar estes desafios e que dentro das práticas, sejam esportivas ou outras propostas em aula, tornaram-se alguém melhor, alguém capaz de arriscar-se a errar, a aprender e a se conhecer melhor.

É comum o professor de Educação Física andar pelos corredores da escola e ser abraçado pelos alunos, e querido por boa parte da turma, mas dentro dessa visão romântica está escondido um jogo obscuro que nem todos sabem e nem todos enxergam. O professor de Educação Física precisa saber discernir sobre a real importância de sua aula e que nem sempre apenas o "divertido" pode imperar. Claro que devemos sempre tentar tornar a aula um acontecimento o mais prazeroso possível, mas o professor deve estar convicto de que existirão momentos onde o aprendizado deverá estar acima da busca por uma aula divertida.  Temo escrever isso e ser mal compreendido. Mas como um aluno que ainda tem muito a aprender, tenho aberto mão de meus medos para me expor mais e aprender com os debates sobre esta questão. 

Há sempre aquele comentário na sala dos professores quando um outro professor, com uma língua mais "afiada", vem provocar dizendo que é fácil ser adorado em Educação Física porque não tem prova, porque a aula é sempre alegre e porque é só rolar a bola que eles se divertem. De tão comum, cada vez que vejo um comentário de um professor assim na minha frente, sorrio como forma de agradecimento, mas respiro fundo, fecho brevemente os olhos e peço mais força a Papai do Céu porque sei que será mais um dia de "intensa luta" contra um senso comum que domina a área que escolhi para trabalhar. 

Há muito o que fazer ainda.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Botando as mangas de fora

Nesses pouco mais de 10 anos trabalhando na área de Educação Física, vi e vivi muita coisa marcante. É fato que o trabalho de professor, seja na escola, seja na área de treinamento e formação esportiva deixam marcas incríveis que acabam te criando mais vínculos. Esses vínculos dão sentido ao sonhos de fazer um trabalho de qualidade e assim acontece uma retroalimentação que recomeça a cada ano.



Você dá aula porque acredita no diferencial que pode propor e em virtude deste trabalho, diariamente você é surpreendido com situações que te ensinam sobre a vida muito mais do que já aprendeu em alguma aula na faculdade. Essa troca mantém viva a chama de lecionar, planejar e tentar ser melhor a cada dia e te dá um retorno de como a educação e  formação esportiva são processos a longo prazo. Tenho alunos e ex atletas que anos depois de passarem como participantes, hoje voltam com lembranças daquela formação mostrando que aquilo que foi vivido não foi em vão, que valeu a pena e serviu como base para o que ele é hoje. Além disso, no meio dessa jornada você conhece profissionais sensacionais. E não são apenas professores. Você encontra funcionários de diversos setores que exercem sua profissão com tanta excelência que faz você se perguntar o que seria de você caso essa pessoa não existisse ali dividindo o trabalho contigo. E nesse processo de aprendizado diário vamos evoluindo, aprendendo que podemos ser melhores, mas a história não contém apenas esta parte romântica.




Infelizmente nesse caminho, muito além de vivenciarmos um esporte amador falido no Brasil e um sistema escolar rendido ao mercado e uma Educação Física muitas vezes inexistente enquanto prática sendo conduzida única e exclusivamente pela paixão, crença e dedicação do professor nas escolas, o que mais machuca nisso tudo é dar de frente e ter de conviver com profissionais que adotam o PACTO DA MEDIOCRIDADE como estilo de vida.


Estes medíocres, como diz um grande amigo meu, são Zumbis: Mortos (Não em corpo mas certamente em práticas) que não querem ir embora, pois continuam a sugar um pouco sem fazer quase nada baseando a sua vida na lei do menor esforço.
Além disso, estas pessoas que não têm comprometimento e envolvimento com o que fazem, por não se desgastarem com o trabalho de cada dia, acabam tendo energia de sobra para fazer pactos medíocres, para fazer auto-propaganda, amizades influentes, e assim, em um País que sucumbe ao "jeitinho" e ao "amigo de fulano", esses medíocres continuam por aí. Mortos-vivos da educação, do esporte e de diversas áreas que sabemos muito bem. 



Meus amigos me conhecem e sabem o quanto já sofri com isso. O quanto me indignei com estas pessoas e com a cara de pau de muitos que ainda se intitulam de sofridos, reclamam da vida, explicam o pouco envolvimento na falta de estrutura, reconhecimento e etc. Estes já sugaram por demais a minha energia. 

E neste ano, de tantos desafios profissionais novos na minha vida, olho pra trás e vejo que de alguma forma amadureci graças a estes profissionais que por não fazer nada, me jogaram mais trabalho nas costas, mais desafios e de alguma forma me fortaleceram. Descubro então que o mais importante de tudo é você continuar. Não importa o quanto você produz e o reconhecimento que tem, o importante é o quanto você suporta as dificuldades e mesmo assim consegue ainda dignamente fazer a sua parte. Trabalhar porque é importante fazer, porque é certo e não porque vai acabar aparecendo e fazendo se destacar.

Feito este desabafo, volto enfim a escrever por aqui e deixo um vídeo de uma música que tenho escutado todas as manhãs em forma de pedir proteção dos medíocres, daqueles que só querem sugar e de alguma forma pedir força pra fazer um ano simplesmente fantástico profissionalmente. Sou um católico não praticante. Acima de tudo acredito em Deus e esta música fala sobre Ogum, patrono dos guerreiros e dos que não desistem e continuam correndo atrás e que no Brasil é identificado como São Jorge. 

Ao ouvir esta música pela manhã tomo a decisão de que vou fazer melhor do que já fiz e que agora um pouco mais velho e maduro, não vou deixar esses que se encostam e vivem de imagem me atingir ou desanimar. 

Abraço a todos!






Ogum


Composição: Marquinhos PQD/Claudemir


Eu sou descendente Zulu
Sou um soldado de Ogum
Um devoto dessa imensa legião de Jorge
Eu sincretizado na fé
Sou carregado de axé
E protegido por um cavaleiro nobre
Sim vou à igreja festejar meu protetor
E agradecer por eu ser mais um vencedor
Nas lutas nas batalhas
Sim vou ao terreiro pra bater o meu tambor
Bato cabeça firmo ponto sim senhor
Eu canto pra Ogum
Ogumm
Um guerreiro valente que cuida da gente que sofre demais
Ogumm
Ele vem de aruanda ele vence demanda de gente que faz
Ogumm
Cavaleiro do céu escudeiro fiel mensageiro da paz
Ogumm
Ele nunca balança ele pega na lança ele mata o dragão
Ogumm
É quem da confiança pra uma criança virar um leão
Ogumm
É um mar de esperança que traz abonança pro meu coração


(Jorge Ben Jor)
Deus adiante paz e guia
Encomendo-me a Deus e a virgem Maria minha mãe ..
Os doze apóstolos meus irmãos
Andarei nesse dia nessa noite
Com meu corpo cercado vigiado e protegido
Pelas as armas de são Jorge
São Jorge sendo com praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tendo pé não me alcancem
Tendo mãos não me pegue não me toquem
Tendo olhos não me enxerguem
E nem em pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo o meu corpo não alcançara
Facas e lanças se quebrem se o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem se ao meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é da Capadócia.


sábado, 1 de janeiro de 2011

Recomeçar ou continuar?





Em todo começo de ano eu me pergunto se esta virada é uma chance de recomeçar ou é um momento de continuar o que sempre se veio tentando fazer. Penso que de alguma forma as duas alternativas se encaixam. É tempo sim de recomeçar, com a correria em que a vida muitas vezes nos coloca, deixamos de lado alguns projetos de vida que em nossa cabeça ficam adiados para um outro momento. E a virada de ano serve um pouco pra isso, pra te mostrar que você pode sempre recomeçar e reformular as coisas que acredita que deixou um pouco pra trás.

Mas sinceramente não acredito em um recomeço do zero. E aí, de alguma forma, estamos continuando, pois estamos agregando novos projetos a quem sempre fomos, ao que sempre fizemos e aos nossos sonhos que não podem se perder só porque um ano acabou. Penso que somos a mescla desses dois sentimentos: um recomeço diante de uma vida que vínhamos levando e batalhando para conquistar nossos objetivos.

Quando olho pra trás e vejo agora o ano de 2010 materializado em passado, vejo exatamente isso. Preciso recomeçar, mas não posso deixar tudo o que fiz, vivi e aprendi neste ano que se passou de lado. Estas experiências precisam sim contribuir para as novas experiências que me aguardam em 2011.

Desde o dia 29 de Dezembro estou fora de Brasília. Consegui escapar um pouco para repensar tudo o que foi feito e fazer um balanço de como lidei com as situações que me ocorreram. E fazendo este balanço todo é que me vêm a cabeça as três situações profissionais que me marcaram em 2010. Primeiramente o Colégio CEUB, no qual trabalhei nos últimos quatro anos e que tive um rompimento doloroso, pois tive de deixar colegas de trabalho, alunos queridos e sonhos profissionais para tentar outro projeto de vida que me apareceu no meio do ano. Devo também 2010 à equipe de Basquete Universitário do CEUB. Um projeto no qual tive o prazer de me arriscar e que recebi dos atletas e companheiros de trabalho muito mais do que pude oferecer durante todo o ano. E por fim, a ex-equipe do Botafogo-DF, que após descobrirmos que não receberíamos salários nunca e que estávamos sendo enganados, a equipe foi intitulada de "NÓS". Uma prova de como esse grupo me ajudou a entender como podemos atingir resultados expressivos dentro de quadra, com exigências técnicas e táticas, mas sem perder o foco da formação humana, de mostrarmos que o grupo unido e pensando em um mesmo ideal, pode superar limites e ensinar a muitos sobre um trabalho coletivo.

Estou de férias até o dia 9 de Janeiro e tentarei neste tempinho mais tranquilo e com a cabeça mais solta para tentar escrever sobre cada uma destas experiências. Quero tentar aqui contar um pouco de como estas etapas vividas no ano de 2010 me marcaram e serão a base para eu pensar em continuar por este novo ano um trabalho de qualidade e por me dar a chance de recomeçar em novos desafios que surgem no horizonte de 2011.


Colégio CEUB, Basquete CEUB Universitário e "NÓS" (Ex Botafogo-DF)
Três experiências que marcaram meu 2010


Desejo a todos vocês um grande ano de recomeços, mas que não perca o que cada um já produziu até agora!


Abraço à todos!

sábado, 18 de dezembro de 2010

O técnico e seus valores

Dividindo com vocês mais um artigo do Professor Ronaldo Pacheco que foi escrito nesta semana.

Aproveitem!

*                                                                               *                                                                               *




TÉCNICOS FORMADORES E “TREINADORES”

Sei que em todos os assuntos que abordamos é muito difícil generalizar, mas me arriscarei a emitir minha opinião, já me desculpando e convidando para o debate os que dela discordarem.

No mundo sempre existiu dois tipos de pessoas: as que nasceram para fazer, construir, formar e outras que usufruem do que está pronto. No campo da educação, formação de pessoas e também na formação esportiva, esta divisão existe e a cada dia se torna mais evidente tornando estes dois lados mais distantes entre si no que diz respeito a sua visão de mundo.

Gostaria de abordar neste texto a questão dos técnicos formadores e dos técnicos que dirigem as equipes profissionais principalmente no basquetebol que é o esporte que possuo vivências mais próximas.

Não há dúvida que muitos dos técnicos que atuam nas equipes adultas iniciaram suas carreiras nas categorias de base formando atletas. No entanto ao alcançarem a categoria principal, parecem que esquecem seu passado de formador e acham que seu papel é apenas estar presente nos treinos, dirigir taticamente a equipe, fazer substituições e lidar amistosamente com a mídia. Quanto à formação de jogadores, esquecem-se que o trabalho com o jogador nunca está acabado, nunca é completo, pois todos sempre têm o que aprender, o que aperfeiçoar.

Quando percebem alguma falha técnica em algum atleta percebem que é mais fácil dispensá-lo e contratar novos atletas, ainda mais quando sua equipe dispõe de recursos financeiros para atrair jogadores reconhecidos. Este comportamento resulta em uma falta de evolução, e a estabilização de um nível de basquete que tem se mostrado insuficiente para os padrões internacionais.


Já o técnico formador se preocupa em passar os princípios do jogo não só nos aspectos técnicos do mesmo, mas uma formação integral do esporte, onde as dimensões cognitivas, afetivas e sociais são trabalhadas em conjunto. Não basta formar um atleta que execute bem os fundamentos, mas que não consegue ler o jogo, não sabe ser parte de um grupo, que se vê mais importante que a equipe ou que desrespeite os adversários e o próprio esporte que pratica. Talvez seja esse um dos problemas para que os técnicos de formação cheguem às equipes adultas, nesta categoria na maioria dos casos os fins justificam os meios e os resultados dos jogos sendo positivos tudo o mais passa a ser o de menos. Um técnico realmente formador não se ilude com resultados imediatos nem com a vitória momentânea.

Para piorar a situação vemos que os técnicos de formação, são muito mal remunerados (quando o são), trabalham em situações precárias e sobrevivem pelo ideal educativo. Muitos montam escolinhas esportivas onde passam a viver das mensalidades dos alunos, inviabilizando muitas vezes que garotos de talento, mas de baixo poder aquisitivo possam praticar o esporte que desejam.

Esta perversa lógica mostra que os que atuam na formação pouco recebem enquanto que os que trabalham na categoria adulta recebem bastante (dentro dos padrões nacionais). É a lógica de valorizar o que está pronto, sem atentar para a formação, para a nascente, sem perceber que a mina está secando, que existem mais compradores de ouro do que “garimpeiros” e que a “galinha dos ovos de ouro” está morrendo.


Estes técnicos de categoria principal que passam a ser em muitos casos apenas administradores dos egos inflados dos jogadores, são envolvidos pela admiração da mídia e acabam descuidando-se de controlar seus próprios egos. Mas nem tudo é alegria, porque estes mesmos técnicos são obrigados a se sujeitar as vaidades dos diretores e presidentes (de clubes, federações e confederações) que tem o poder de demitir e contratar de acordo com suas convicções baseadas muitas vezes em indicações políticas e de amigos. 



Alguns técnicos de categoria adulta, mais antenados com essa realidade que pouco valoriza a formação e enaltece a ponta da pirâmide, discursam enaltecendo o trabalho dos técnicos das categorias de base e da importância de um trabalho bem feito (mesmo sendo um discurso da boca para fora e com total ojeriza a eles próprios executarem). Outros ainda mais “autistas” e/ou “egocêntricos” desqualificam o trabalho de base culpando-o pelo fracasso do basquete brasileiro. Estes mesmos que apontam o dedo para a ferida aberta não disponibilizam sua “competência” para atuar nesta área realizando o “curativo” tão necessário para sarar este esporte desse mal que nos aflige há décadas.

O dilema está colocado: qual deve ser a ambição dos técnicos? Serem formadores enfrentando as inúmeras dificuldades na carreira ou tentarem alcançar o “estrelato” (???) dirigindo categorias adultas? Será um a sequência natural do outro? Será que educação integral e excelência são tão conflitantes?
No meu modo de ver, a diferença principal é que os técnicos do adulto passam pela carreira dos atletas deixando suas histórias gravadas nas páginas de jornal e nos vídeos televisivos. Os de base deixam sua história impregnada na vida e na conduta das pessoas.

Às vezes a diferença é entre valores e valores ($$$).


Ronaldo Pacheco

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O esporte e sua imprevisibilidade

Uma das coisas que mais me fascina no esporte é o aprendizado diário que se tem com treinos e jogos. Perceber a sua evolução como praticante de alguma modalidade ou superar-se dentro de uma partida ou prova, mostra que estamos a todo momento tendo a chance de provar a nós mesmos que podemos ser melhores.

Mas aqueles que não estão muito em contato com a prática esportiva normalmente tendem a achar que qualquer jogo é um jogo onde existe uma equipe favorita e esta, dita o ritmo do jogo ou da prova e tudo termina com a vitória do melhor. E as vezes mesmo vencendo, o time que sai de quadra derrotado pode por muitas vezes ter vencido o adversário em diversos aspectos ou se superado a ponto de enxergar no resultado uma grande evolução.

Acima de todas estas possíveis situações, venho aqui mesmo para postar um vídeo que vi recentemente. No primeiro instante após assisti-lo já imaginei ele sendo postado aqui no blog. Tentei fazer uma tradução que tenha a linguagem que acredito ser interessante e pra isso contei com a ajuda de um amigo e um site de tradução simultânea pra alavancar o meu pobre inglês.

O comercial fala do que todos esperam que aconteçam em um jogo e do que, só quem está em quadra ou dentro da competição, é que pode dizer o que é sentir o desafio bem na sua frente. A busca da vitória é compartilhada com a possibilidade e o desafio de superar o adversário e a si próprio.

Fica aí o vídeo que considero bem inspirador.

Abraço à todos


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma viagem e muitos aprendizados - Parte II

Passaram-se cinco finais de semana para eu conseguir escrever a segunda parte deste post. Mas enfim, saiu!

*                                                                               *                                                                       *


O que mais me chama a atenção em viagens de competição quando acontecem é a possibilidade de você conhecer melhor cada atleta e de poder intervir de forma mais incisiva no que diz respeito à trabalho de equipe.


Não tem como escapar, você convive diariamente com cada atleta em sua totalidade. Acorda, treina, almoça, joga, janta e dorme no mesmo ambiente. De alguma forma, as viagens servem também pra você tentar entender melhor o que pensa de cada um e de que forma pode influenciar melhor cada atleta seu. Eu pelo menos penso muito nisso. Muitas vezes fazemos um perfil de nosso atleta no horário de treino e esquecemos que o treino é apenas um "recorte" do dia daquela pessoa. Em cada treino, cada um carrega consigo os problemas diários, as dúvidas fora dali e por mais que tentemos fazer com que ele naquele exato momento concentre-se apenas no treinamento, de alguma forma devemos perceber também que eles são influenciados pela rotina que vivem e o estilo de vida que têm.



E viajar para competir tem essa característica especial. Por um breve momento enquanto viaja e compete, você pode tentar extrair do atleta o máximo de entrega àquele momento e assim acaba tendo a chance de colocá-lo numa oportunidade de evoluir mais ainda. Individualmente e em grupo.


Foi assim que viajei para Belo Horizonte, em busca de conseguirmos um bom resultado, visto que temos uma equipe extremamente competitiva em nível nacional, mas também em busca de conhecer melhor cada atleta e tentar evoluir como técnico. Nesta busca de evolução de todos, vemos como o intercâmbio é essencial. Só o fato de poder enfrentar técnicos que conheço de longe, admiro e outros que passei a conhecer na própria competição já me fazia testar tudo que eu acredito que poderia fazer ali naquele torneio. De alguma maneira enquanto enfrenta e assiste jogos de outras equipes que não está acostumado a ver muito, você acaba assimilando e pensando sobre outras formas de jogar e essa possibilidade de repensar seu trabalho e como joga a sua equipe faz muito bem ao trabalho.


Profissionais que admiro e que tive o prazer de enfrentar.

Quanto a trabalhar com um grupo jovem assim é uma experiência pra mim sempre renovadora. De alguma forma ser professor te dá algumas vivências que considero especiais. Por mais que já tenha vivido a minha adolescência e acredito que tenha vivido tudo muito bem, quando se é professor você tem a chance de reviver, ou pelo menos tentar entender, o que se passa com pessoas de uma idade que considera já ter tido esta experiência muito bem vivida. E estar com os meninos de idades entre 17 e 19 anos acaba me fazendo bem. Por um lado resgato tudo o que vivi nesta época. Por vezes recordava de minhas viagens com equipe sendo juvenil e muitas destas lembranças viraram histórias para eles. Por outro lado, você tem a chance, por já ter passado por algo parecido, de mostrar um caminho e direcioná-los a um melhor aproveitamento de tudo. E toda essa mistura de nostalgia com realidade, leva a um trabalho prazeroso de experimentar apesar de considerar extremamente cansativo.



E assim foi nossa viagem, entre os jogos, a percepção de quem ganhou confiança e de quem precisa ainda se soltar . Os altos e baixos de uma competição, as conversas no vestiário antes e após o jogo e as histórias que você acaba construindo com eles durante este tempo fora de casa. Dentro de quadra conseguimos juntos, com muita conversa e dedicação, evoluirmos comparado a quando chegamos à competição e tivemos a chance de enfrentar na final a grande equipe do Minas Tênis Clube. Além dos profissionais que respeito muito que lá trabalham, admirava também muitos atletas que a esta equipe pertenciam. Dois meses antes da competição estava em Brasília trabalhando de guia da Seleção Brasileira acompanhando os treinos e jogos de Raulzinho. Agora, estava tendo a chance de tentar pará-lo dentro de quadra com os meninos da nossa equipe. Além de Raulzinho, tivemos de tentar parar outros jogadores que acompanho de longe em competições nacionais de base e que vi o tanto que evoluíram. No jogo em si, fizemos uma final brilhante, com uma entrega incrível dos meninos aos que combinamos antes da partida e tivemos bons momentos à frente da equipe do Minas. Na reta final da partida com alguns lances decisivos, deixamos escapar o placar apertado e eles abriram 9 pontos. Diferença que acabou nos desestruturando um pouco nos minutos finais e que nos fez perder aquela partida por 7 pontos de diferença.



Ao final do jogo, já tentando pensar em tudo que vivemos naquela semana de competição, agradeci aos meninos por toda a entrega e pelo tanto que me ensinaram sobre grupo e sobre basquete naqueles dias. De alguma forma questionei eles até que ponto o fato de eu valorizar muito a equipe adversária e a qualidade deles, fez da nossa equipe satisfeita por apenas fazer "jogo duro" com o adversário. Já era um desafio que eu precisaria melhor no meu trabalho. Saí do jogo com a certeza de que éramos um grupo tão bom quanto eles e com plenas capacidade de vencê-los. Mas este desafio já era pra ser trabalhado para uma próxima oportunidade. Quando volto de competições assim e vejo garotos que sonham jogar basquete se entregando a um objetivo em comum e tentando evoluir, me empolgo com a chance de trabalhar cada vez mais com basquete mas ao mesmo tempo e pelas experiências já vividas acabo tentando conter minha empolgação, pois estes meninos por mais talentosos que sejam, ficam limitados a uma realidade Brasileira. Por que digo isto?

Porque este evento não tinha ninguém da CBB presente, é um torneio criado pelo Minas Tênis Clube, onde cada equipe convidada contribui com uma taxa simbólica de inscrição e por cinco dias, jogam 7 jogos com alguns dias tendo de fazer dois jogos por dia.


Esse tipo de torneio é bem comum em nosso País. Um clube ou uma sede, custeia boa parte da competição e convida as outras equipes de fora para participarem, com cada equipe custeando além da inscrição, algum custo como hospedagem ou alimentação para que não fique tão apertado para todos. Apesar da iniciativa destes diversos clubes espalhados pelo Brasil ser belíssima, eventos como este são a "foto 3x4" da situação do Basquete do nosso País. É muito normal ouvir nos congressos técnicos destes eventos, dirigentes e técnicos dizendo que fazem isso porque não podem esperar por uma iniciativa da Confederação Brasileira de Basquete. 

Infelizmente, esta é uma triste realidade.

Temos uma geração belíssima sub-20 no Brasil e penso que a liga nacional que está sendo prometida para o ano que vem para esta idade, pode sim revolucionar o Basquetebol Brasileiro a médio e longo prazo. É preciso fazer algo por tantos meninos que fazem, lutam e se entregam pelo esporte que tanto amam como nós. Antes que eles desistam por não verem retorno algum.

Por fim, é impressionante como 5 dias fora da cidade podem influenciar tantas pessoas a serem melhores e a aprender cada vez mais.

Abraço à todos.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma viagem e muitos aprendizados - Parte I

Pela primeira vez neste blog vou fazer um post dividido em duas etapas. Como gosto de detalhar muito as experiências que vivo, quero não ficar me cobrando por estar escrevendo muito e deixar solto minhas impressões sobre essa recente experiência que vivi.
Bom... vamos lá!


Já fazem quase 3 meses que resolvi arriscar na minha vida. Trabalho hoje em dia na equipe de Basquete do Botafogo-DF como assistente técnico do meu amigo Professor Ronaldo Pacheco e junto de outro amigo e também assistente Michael Swioklo. Para tomar a decisão de ir trabalhar com esta equipe precisei tomar uma decisão de largar um trabalho meu numa escola que marcou muito a minha vida, mas isto é história para um outro post.

Pois bem, o nosso grupo é basicamente formado por atletas sub-19 (Com a maioria tendo entre 17 e 18 anos). Temos também alguns Sub-20 e apenas dois atletas na casa entre 20 e 30 anos. Formando um grupo de 24 atletas. Todos treinam juntos e disputamos tanto campeonato juvenil como adulto com a mesma base. A ideia nossa neste trabalho é ir galgando etapas no circuito inicialmente Brasiliense, para depois disputarmos a Taça Centro-Oeste, visando buscar a única vaga Centro-Oeste na Copa Brasil e aí sim, tentar conseguir uma vaga para o NBB.
Equipe do Botafogo-DF disputando o Campeonato Juvenil de Brasília


Quando me decidi largar meus outros trabalhos para me tornar parte deste, três coisas pesaram a favor dessa decisão. Inicialmente o projeto de chegarmos em nível nacional com atletas da cidade, coisa que não acontece com nosso representante nacional atualmente. Em segundo lugar porque temos uma geração de 17 à 20 anos em brasília maravilhosa, fruto de bons trabalhos de técnicos na cidade e isto me estimula porque faz com que eu tenha de reformular e potencializar meus estudos sobre basquete. Em terceiro e por fim o que me motivou também foi a chance de trabalhar com uma comissão técnica diferenciada. Ronaldo é um nome de expoente nacional que não precisa nem explicar e que trabalhei junto em 2004. Michael, com quem já trabalhei há dois anos atrás, é um fenômeno, é um técnico apaixonado pelo constante estudo dos aprendizados táticos e técnicos e busca incessantemente as novas tendências em basquete. Só eu sei o quanto esse cara tem me colocado pra estudar e desafiado meus conhecimentos.

Nessa trajetória toda tínhamos um desafio dentro desta primeira fase de campeonatos da cidade. Havíamos sido convidados para participarmos da VI Copa Minas Tênis de Basquete em Belo Horizonte na categoria sub-19. Esta Copa era uma possibilidade bem interessante de colocarmos à prova o trabalho que vínhamos desenvolvendo com estes meninos. Pela combinação de nossas agendas, Ronaldo e Michael não poderiam viajar na época em que seria realizada a Copa e aí vi que este teste também seria direcionado em grande escala para a minha pessoa.

                                   


Neste torneio teríamos as equipes do Ginástico (MG), Cetaf (ES), Flamengo e Fluminense (RJ) e o Minas Tênis Clube, uma equipe que conta com bons valores na categoria como Cauê Borges, recém vindo de Franca, Bruno Irigoyen, que foi seleção Brasileira sub-18 neste ano e Raulzinho, o nome mais citado entre nós durante nossos treinos e que hoje em dia não precisa mais de apresentações.

Cristiano, Cauê, Bruno e Raulzinho
Atletas Juvenis do Minas e da Seleção Brasileira de base


Só a presença destas equipes participantes já nos motivaram bastante em nossa preparação para esta viagem. Para mim, seria um momento importante de me aproximar mais dos atletas com os quais convivo diariamente nos treinos e também de me relacionar e conhecer melhor outros técnicos que admiro no cenário do basquete nacional. Estava diante de um desafio muito bom de ser vivido.

Neste final de semana conto aqui como foi a nossa experiência nesta competição.

Abraço à todos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Um esporte completo exige um suporte completo.


Hortência foi responsável por esta declaração após o Mundial Feminino de Basquete
"Várias vezes ligamos para a psicóloga no Brasil para ver o que poderíamos fazer. Elas lidaram muito mal com a derrota, o técnico se perdeu. Quando começaram a engrenar, já era tarde. Um dia, eu fiquei às 3h da manhã procurando música para um vídeo motivacional que ia passar para as meninas. Não acho que tem necessidade de levar um profissional de psicologia e vou continuar não levando"



Ontem recebi uma mensagem de email de minha amiga Mariana. Mais uma pessoa com quem fiz amizade nas quadras. No trabalho diário. Mariana mostrava-se inconformada com a declaração de Hortência sobre o mundial de basquete feminino, onde afirmava que a equipe mostrava-se desestruturada emocionalmente, mas que mesmo assim manteria o trabalho nas comissões técnicas  sem um psicólogo presente. Enfim, isso gerou revolta não só na Mariana, como em outros sites de basquete que andei lendo hoje cedo.

É complicado entender que na ponta do Esporte Brasileiro, numa Confederação de um esporte que consideramos belo e complexo, não se pense em agregar informações e uma equipe multifuncional que possa trabalhar os mais diversos valores para o melhor rendimento da equipe. Mesmo achando que o problema gritante do Basquete Brasileiro Feminino é de ordem técnica, de formação de base e de campeonatos sucateados, a declaração de Hortência mostra que se nem a Confederação Brasileira de Basquete tem um olhar a longo prazo para as diversas dimensões do esporte, onde será que teremos no esporte Brasileiro, que em sua base vive um amadorismo sem fim com professores abnegados que sustentam trabalhos sozinhos e com estruturas precárias que limitam o aprendizado da modalidade pelo País à fora, um trabalho que preze pela qualidade da informação passada aos seus atletas?

Neste momento posso dizer que sou um privilegiado. Tive a possibilidade de conhecer esta mesma Mariana numa situação assim. Mariana é psicóloga e no ano passado teve a chance de fazer um trabalho de acompanhamento psicológico de uma equipe de basquete juvenil de Brasília comandada pelo professor Ronaldo Pacheco. Mariana queria testar seus estudos, colocar em prática suas ideias e supervisionava um grupo de psicólogos que acompanhavam a equipe. Mais a frente, tive a chance de conhecê-la melhor  fazendo um trabalho parecido na seleção sub 17 do Distrito Federal e pude neste ano que passou, aprender bastante sobre o trabalho que um psicólogo desportivo pode acrescentar à uma comissão técnica e à atletas tanto em formação quanto adultos. Digo isso porque após este trabalho, Mariana passou a acompanhar dois atletas de Brasília que disputavam o NBB e que de alguma forma também puderam crescer profissionalmente com o respaldo de uma profissional que acrescentava na sua formação esportiva. 

Assim que recebi o email da Mari, um pouco ainda indignada com a declaração de Hortência, lancei um desafio a ela e perguntei se não gostaria de escrever um pouco sobre essa triste realidade Brasileira que não valoriza áreas complementares na formação esportiva. 
Transcrevo aqui a resposta quase que imediata dela:


"Missão dada é missão cumprida!!!
Jamais me esquivaria a um desafio seu!!!"


Segue então o relato dela sobre o episódio.



"A primeira vez que entrei em uma quadra de basquete sem a obrigação de jogar, foi 13 anos após o fim da minha curtíssima carreira. Entrei para “trocar idéia” com um técnico de basquete após indicação de uma amiga; segundo ela, ele dava total apoio à Psicologia do Esporte. Fui preparada apenas para um papo, mas ele me convidou para sentar no banco... era dia de jogo!!! Assim o fiz, e comemorei silenciosamente. 
Desde então comecei a frequentar os treinos e os jogos, de olho em tudo... em todos os mínimos olhares e movimentos dos atletas, percebendo o nervosismo daqueles que se diziam “calmos” durante a partida enquanto eles seguravam um copo d’água durante o tempo técnico. Com ajuda deste técnico, consegui supervisionar in loco cinco estagiários, que exerceram papel de psicólogos ativos do esporte; auxiliando o técnico, coletando dados, fazendo scout...


Mariana fazendo parte da comissão técnica também durante os jogos.

Devo isso e muito mais ao Ronaldo Pacheco, que pouco depois me convidou a integrar a Comissão Técnica da Seleção sub – 17 de Basquetebol Masculino do Distrito Federal, juntamente com Rodrigo “Galego” e Michael.
Batalhei, fiz um pouco meu nome em Brasília e parei em um time dito “de ponta”, considerado o maior do basquete nacional atualmente. Trabalhei com apenas dois atletas, sempre com algumas dificuldades, mal acostumada pelo Ronaldo, afirmava que meu lugar era no banco, nunca fui ouvida; respeitada em silêncio pelos dois atletas que eram acompanhados por mim, bem relacionada com todos que ao serem campeões do NBB me disseram que eu também era parte daquele título. Agradeci mas me esquivei dessa atribuição por saber que não contribuí 100% para todo o time.
Hoje, ao ler as declarações de Hortência proferidas no programa Arena SporTV, percebi que o retrocesso chegou ao esporte que aparentemente mais abria as portas para a integração de um psicólogo nas Comissões Técnicas. 

Fiquei sentindo como se eu tivesse pego o caminho contrário, passei por um estrada maravilhosa; asfalto liso onde eu podia acelerar, mais a frente peguei uma estrada sinuosa e com buracos; mas eu podia me manter nela, e de repente a estrada acabou, não havia mais caminho para seguir ou curva para dobrar... o jeito era me achar no meio da confusão. O contrário para mim faz mais sentido.

Cada dia percebo como o psicólogo do esporte é facilmente substituído por um dinheiro a mais diante de uma vitória, por uma palestra motivacional com duração de uma hora com qualquer profissional da psicologia organizacional ou até por massagem no lóbulo da orelha diante da ansiedade pré competitiva...
Todo dia me pergunto quando poderei seguir naquela estrada maravilhosa novamente... quando poderei sentar no banco com o uniforme da Comissão Técnica como meus outros colegas? Quando serei compreendida como profissional e perceberão a integração entra tático, técnico, físico e psicológico? Quando poderei propor uma metodologia de trabalho em longo prazo (e não aparecer uma vez por semana, por 1 hora e sem a menor possibilidade de formar vínculo com os atletas), sem acharem que sou guru, mágica ou curandeira?
Voltando a declaração da Hortência, ela me assustou tanto pelo amadorismo quanto pelo momento; justamente na mesma semana em que o presidente do COB, Sr. Carlos Artur Nuzman, declarou que o Brasil pode ficar fora das Olimpíadas de 2016, que serão realizadas... aqui, por falta de estrutura.


Lamento por esse tipo de pensamento sobre o acompanhamento psicológico ser propagado por uma das figuras mais conhecidas do basquete nacional e mundial, destoando totalmente da realidade e da aceitação do esporte, ao menos eu já vivi dias melhores mesmo passando o rodo com pano para limpar a quadra, pegando água, carregando bola, buscando uniforme... na hora em que eu falava, todos me ouviam; o que muitos deles faziam com a informação eu não posso dizer, porém eu tinha liberdade para me expressar e defender indiretamente minha área, essa declaração é típica de quem não conhece o real trabalho de um psicólogo em quadra, pois ficar até às 3 da manhã procurando uma música para um vídeo motivacional para passar para as atletas durante o Mundial na República Tcheca, sem domínio e conhecimento do conceito de motivação e da real função de um vídeo motivacional; é no mínimo perder tempo, pois a psicologia do esporte já está bem além disso.

É preciso bom senso dos dirigentes e de todos que mandam e desmandam no cenário esportivo nacional, diretrizes precisam ser apontadas e a integração do psicólogo é urgente; a formação de vínculo com os atletas, a aplicação de testes e questionários, as entrevistas e sessões individuais são algumas das funções do psicólogo que precisam ser aceitas e respeitadas.

Para Hortência, gostaria de deixar apenas um recado: o lugar do psicólogo é no banco junto com a Comissão Técnica e não do outro lado da linha."




terça-feira, 5 de outubro de 2010

Técnico de Basquetebol: Vocação, preparação ou experiência?

Aproveitando a correria dos dias para atualizar com mais uma coluna interessante do Professor Ronaldo Pacheco


    *                                                                  *                                                    *




Durante muito tempo tivemos ex-jogadores comandando escolinhas esportivas ou equipes de alto nível, baseando seu trabalho em suas experiências anteriores, sem buscar informações atualizadas sobre psicologia, administração esportiva ou desenvolvimento humano. Quando muito, se atualizavam em cursos técnicos ou oficinas de basquetebol que tratavam muito da técnica do jogo, alguma coisa da tática, e quase nada sobre os temas acima mencionados. Hoje já começamos a notar uma melhor seleção na escolha de técnicos com formação em educação física, que procuram se atualizar a partir da leitura de livros e trabalhos internacionais nas diversas áreas que envolvem o treinamento esportivo.

É lógico que ter conhecimento da parte teórica do jogo não assegurará sucesso na carreira de técnico, no entanto o embasamento teórico é um suporte fundamental que será melhor desenvolvido a partir da experiência prática do jogo, da análise dos seus erros e acertos e principalmente na humildade para ouvir e assimilar críticas construtivas.



Um técnico é o responsável por todo o funcionamento de uma equipe e, quando me refiro a “funcionamento” estou me referindo ao tratamento da complexa engrenagem de um grupo social que se propõe a atuar em conjunto, em prol de um objetivo comum. Esta “máquina humana” para conquistar seus objetivos deve estar ajustada nos seus relacionamentos (estar coesa); deve estar disposta a um sacrifício coletivo a partir do sacrifício individual (cada um contribuir da melhor forma no desempenho do seu papel para o sucesso da equipe); deve ter um conhecimento do jogo nos seus aspectos táticos e um bom desenvolvimento dos fundamentos técnicos para que possam ser devidamente utilizados dentro da tática. Estas diversas tarefas são complementares e necessitam de um planejamento e acompanhamento incessante por parte do técnico. Não se pode admitir que o tratamento que um técnico dê a estes aspectos seja feito de forma empírica. Por isso a necessidade de estudos, planejamentos e aprofundadas análises críticas do seu desempenho.


A partir de estudos e das observações proporcionadas por estes anos na prática do basquetebol, me vi muitas vezes adotando posturas que me fizeram refletir sobre os diversos tipos de conduta dos técnicos ao lidar com sua equipe:
  • Técnico Torcedor: Confunde a paixão pelo clube ou pelo esporte com a sua função. Tem atitudes completamente passionais. Exclui do grupo os que não estão dando resultados imediatos. Quer a vitória incessantemente, sem fazer uma análise racional das condições de trabalho, da própria equipe e do nível da competição. No banco, grita , xinga, torce e dá poucas instruções úteis à equipe. Perde a cabeça com o juiz cada vez que o mesmo comete qualquer erro. *
  • Técnico Exibicionista: Considera-se o eixo central da partida. Coloca a culpa nos jogadores sempre que a equipe perde. Suas broncas são sempre em voz alta para que a torcida possa sentir a sua presença e seu pulso firme com a equipe. Quando a equipe está perdendo com grande diferença, fica quieto, mostrando ao público que não faz parte daquele grupo perdedor. Faz pedidos de tempo desnecessários para que notem sua presença no jogo. Fala sempre na primeira pessoa: “minha equipe”, “meus atletas”, em compensação quando as coisas não vão bem diz: “a equipe perdeu”, “eles não mereceram a vitória”, “a equipe não teve garra”, etc. Se isenta da responsabilidade quando o resultado não é favorável.
  • Técnico Autoritário: Todos devem seguir as suas idéias. Não cabe a ninguém da comissão técnica, muito menos aos jogadores discutir suas opiniões, devem cumpri-la; Assume os erros, mas não aceita as críticas.
  • Técnico Bonzinho: Conhece os princípios básicos do jogo, mas nunca entra em confronto com as idéias dos jogadores para não criar problemas para equipe. Prefere abrir mão de algumas convicções de jogo para não ferir o ego e algum atleta que ele julgue muito importante para a equipe. Procura agradar a todos para que seja do agrado de todos também.
  • Técnico Teórico: Estuda o jogo, conhece bem os diversos procedimentos técnicos e táticos, mas tem dificuldade em transmiti-los aos jogadores. Não tem paciência com os erros por achar a execução muito simples; Não consegue lidar com os aspectos emocionais dos jogadores. Na maioria das vezes não consegue entender as situações de fracasso já que fez tudo de “acordo com o manual”.
  • Técnico Democrático/Educador: Aberto ao diálogo com toda a comissão técnica e jogadores. Discute com a equipe suas opiniões. Tenta fazer com que toda a equipe compreenda as opções tanto táticas como técnicas. Preocupa-se com as questões particulares de cada um. Entende os erros, corrige-os e admite suas próprias falhas. Sabe respeitar a individualidade de cada jogador, suas características psicológicas e seus momentos emocionais. Assume as responsabilidades pelas derrotas perante os outros, porém conversa com sua equipe sobre os erros que a originaram tentando corrigi-los. Sabe ouvir as críticas sem levar para o campo pessoal. Sabe chamar a atenção na hora e da forma devida. Faz valer a sua autoridade pela competência demonstrada.
É claro que posso ter “caricaturado” as situações acima expostas, mas creio que nós técnicos, já passamos por algumas dessas fases em diversos momentos de nossa atuação. O importante é que possamos fazer uma análise para que possamos atender as nossas perspectivas em relação a esta profissão.

Ser técnico de uma modalidade tão complexa como o basquetebol exige bastante conhecimento nas diversas áreas ligadas ao jogo e ao relacionamento humano, portanto, respondendo a provocação do título do artigo, creio que para ser um bom técnico de basquetebol é necessário, muito conhecimento teórico (obtido através do estudo incessante), o aproveitamento das experiências vividas (com uma análise criteriosa) e um pouco de vocação. Tudo isso cercado por uma grande dose de paciência, obstinação e sentir a necessidade de estar aprendendo sempre.