Essa turma é uma turma muito querida e divertida. Trabalhamos com o basquete, mas nessa faixa etária é muito importante estimular o desenvolvimento motor amplo. Fazer os alunos experimentarem diversas habilidades motoras e situações. Não se pode apenas ensinar o gesto técnico do basquete. As crianças nessa idade não estão com seu programa e repertório motor finalizado (na verdade nunca estamos) e é preciso formar uma boa base motora pra que futuramente ela consiga construir melhor seus movimentos em qualquer modalidade que ela quiser praticar.
Pois bem, a brincadeira/desafio era lançar uma bolinha de tênis na parede e conseguir pegá-la antes dela tocar o chão. Um desafio como esse envolve diversas habilidades. Para ter êxito, a criança precisa dominar o básico do movimento do lançamento e também ter um cálculo sobre a distância entre ela e a parede, para assim, realizar o movimento de lançamento e poder se ater a habilidade de recepção, que é uma habilidade que chamamos de visual motora (envolvendo a percepção visual pelo olhar e o movimento pelas mãos).
Com a prática muitos tiveram sucesso imediato, já outros levaram algumas tentativas para conseguirem estabilizar o movimento. E com um tempo de prática, eles já estavam se desafiando: Aumentando a distância entre eles e a parede, jogando a bola na parede, tocando as mãos no chão e pegando a bola de volta e por aí foi.
Dei um certo tempo de prática até que notasse que eles tivessem real sucesso com as tentativas e que aquela atividade caísse no nível de interesse deles, afinal eles já conseguiam com muito sucesso a prática.
Daí fiz o seguinte desafio: "Quero ver quem consegue fazer a mesma prática lançando a bola com a mão esquerda".
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| Imagem que mostra as fases da habilidade de lançar a bola, do livro "Compreendendo o desenvolvimento motor " de Gallahue e Ozmun |
Foi o bastante para mudar completamente a atividade. As crianças não tinham uma boa combinação de lançamento com a mão esquerda, o que comprometia o lançamento. E com o lançamento comprometido, a chance de pegar a bolinha em boas condições caiu bastante de possibilidade. Deixei eles praticando por um tempo e dessa vez poucos conseguiram de imediato o sucesso na realização. Outros continuavam com dificuldades de lançamento e não conseguiam perceber no que estavam errando para tentar corrigir. Fui então fazendo algumas intervenções e explicando sobre o movimento de lançamento, mas mesmo assim, precisaria de mais tempo para a evolução deles e resolvi finalizar aquela prática para refazermos em um outro momento.
Ao final dessa atividade, juntei os alunos e perguntei a eles o porquê de não terem muito sucesso na execução com a mão esquerda. E o mais surpreendente é que pareciam ter ensaiado a resposta, pois todos responderam alto e ao mesmo tempo:
"Porque somos destros!"
Nesse exato momento uma denúncia acabava de acontecer ali. A ideia de que não aprendemos as habilidades pelos dois lados porque temos apenas um lado dominante. Isso é uma grande mentira. O lado dominante existe e ele certamente te dá uma capacidade de execução, precisão e eficiência melhor, até aí tudo bem. Mas dizer que você não é capaz utilizando o lado não dominante por que não é seu lado "forte" é um grande engano. Respondi aos pequenos que eles tiveram dificuldades porque praticaram pouco, experimentaram (alguns nunca experimentaram) muito menos do que pelo lado dominante em suas vidas, e por isso a dificuldade.
E essa é a ideia da aprendizagem motora erroneamente praticada. Aprendemos somente o que somos bons. Esse é um dado preocupante e que me faz pensar a cada dia que somos um país analfabeto motor. Nossas escolas e espaços de iniciação esportiva muitas vezes não investem numa formação motora integral. Confundimos um ensino que se dedica ao desenvolvimento com apenas brincadeiras passatempos, livre de observações e intervenções que possa potencializar o desenvolvimento de cada aluno. E acabamos por acreditar que aquele que tem uma extrema habilidade e capacidade de solucionar problemas nos jogos é "gênio". E sinceramente não acredito nisso. A pessoa pode ter uma predisposição fantástica para as habilidades motoras, mas se não tiver estímulos e vivências necessárias, não desenvolverá suas capacidades.
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| Neymar é um bom exemplo de uma pessoa que é tratada como detentor de uma habilidade "mágica". Como se não fosse uma combinação de predisposição e trabalho para desenvolver. |
Mas estamos no Brasil, há quatro anos de sediarmos uma Olimpíada e ainda tratamos a formação como algo mágico. Como algo onde os gênios se destacarão por natureza própria. E assim, vamos deixando de formar, não só os excepcionais, como vamos deixando de dar oportunidades de amplo desenvolvimento a tantos outros que poderiam estar mais aptos do que estão.
Confesso que quando as crianças me responderam que não conseguiam fazer a brincadeira com a mão esquerda porque eram destros, fiquei com vontade de responder a todos:
"Vocês são destros, não são manetas!"
Há muito a ser feito nessa área em nosso país.
Espero tocar mais nesse assunto sobre o analfabetismo motor em breve.
Abraço a todos.
Espero tocar mais nesse assunto sobre o analfabetismo motor em breve.
Abraço a todos.














